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Desverdades


Machado aplicado ao caso Petrobras

Primeiro foi a polêmica acerca do blog da Petrobras, que ocupou mais páginas de jornais do que deveria. Agora eles são palco das denúncias de parlamentares contra a estatal e das respostas de José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras, que acusa a imprensa e o Congresso de criar "fatos artificiais" (manchete do O Estado de S. Paulo de ontem).

Não coloco minha mão no fogo por nenhum dos lados - ainda menos pelos políticos, que rateiam as diretorias de empresas do Estado, portanto do contribuinte, em detrimento de indicações com base na formação técnica e da experiência profissional. Enfim, essas picuinhas me lembraram uma frase de Machado de Assis, em Quincas Borba, que nos remete "novamente mais uma vez" ao paradigma da verdade, e de sua relação com o poder vigente:

"Tão certo é que a paisagem  depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão." 

Machado sabia das cousas ... 
 



Escrito por Thais às 10h26
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Um daqueles momentos em que você para (agora infelizmente sem acento) e diz: a vida vale a pena

Amigas.

Esperanza Spalding.

(Uma lágrima na interpretação de "Wild is the Wind", a coisa mais sensível que já vi e ouvi na vida) 

 1/2 Cuba Libre.

George Benson.

Tudo numa segunda-feira.

Nunca imaginei que ia gostar tanto de uma segunda-feira.

PS: Não adianta procurar, não há vídeos no Youtube de Esperanza cantando e tocando "Wild is the Wind", que ficou famosa na voz de Nina Simone. Mas, sem pretensão de trocadilho, há esperança: ela vai gravar a canção no seu próximo disco, como adiantou a Felipe Machado numa conversa de elevador na Rádio Eldorado  (http://blog.estadao.com.br/blog/palavra/



Escrito por Thais às 14h55
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Síndrome do GTalk

Depois que comecei a usar o Google Talk frequentemente tenho a impressão que minhas janelas minimizadas estão sempre se movimentando. Será que um espírito cibernético invadiu o meu computador? Vou consultar minha vó espírita.



Escrito por Thais às 15h50
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Uma grande mentira

Notícia no Valor de hoje: "Desigualdade salarial se mantêm entre negros e brancos"

E ainda tem gente que defende que negros e brancos têm as mesmas oportunidades, que é só querer.

 (Assisitiram muito ao Show da Xuxa, coitados)

Queria acreditar que no país abençoado por Deus não há racismo.

Mas minha sala de aula vazia de negros e ruas e favelas cheias de pretos e afro-pobres-descendentes não me deixa sonhar.



Escrito por Thais às 17h26
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Vida louca vida/ vida breve/ já que não posso te levar/ quero que você me leve

Liberdade é uma coisa que causa depêndencia.

Quando percebe,

já está curtindo a viva adoidadamente,

e quebrando conceitos pré-estabelecidos num dia tão tão distante,

mas que não tinham sido revistos porque estava planejando cada detalhe da vida,

sem vivê-la, no entanto.

O Carpe Diem pode ter seus efeitos colaterais,

mas as vantagens podem ser sentidas até o último fio de cabelo.

E não é disso que uma pessoa de 20 e poucos anos precisa?

 

 



Escrito por Thais às 10h48
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Escolhas

“A vida humana é um mecanismo de escolha, preferência e adiamento. Qualquer escolha é também uma exclusão.”

(Julián Marías – filósofo espanhol)



Escrito por Thais às 17h26
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São Paulo de negão

Estou mega empolgada com o meu projeto de TCC e acredito que assim será ao longo do ano. Mesmo com o cansaço, desânimo, estresse e tudo o mais que inevitavemente atingirá uma estudante de dois empregos e um TCC, os meus olhos ainda brilharão na 44° entrevista de alguém contando suas experiências nos bailes blacks paulistas, porque mais do que um projeto acadêmico esse é um projeto de vida.

Depois de tomar conhecimento da existência dessa fantástica forma de lazer de negão - e que muito branquelo também pira - no ano passado, e que agora é objeto do meu projeto de TCC, no momento acabo de conhecer o circuito black que existe no centro velho de São Paulo. Aquelas ruas, calçadas, galerias, botecos e viadutos estão tingidas de histórias da população negra e eu sequer sabia disso! Nunca tinha lido nada a respeito em livros, jornais ou revistas (o que é um absurdo, mas só esse tema - o negro colocado à margem da História "oficial"- renderia um outro post).

Já que estou falando de descobertas, vai aí um texto que fiz no ano passado para uma prova da faculdade em que conto, expresso na verdade, a descoberta da minha parte negra. Só para vocês entenderem, a proposta era descrever, de forma expressiva, o que eu via quando me olhava no espelho.

Eu, antes e depois de uma identidade
 
A pessoa que olho no espelho hoje não é a mesma de algum tempo atrás. Algo mudou por dentro, algo que há tempos vinha sendo ensaiado nos bastidores, mas não era apresentado ao grande público.
 
O narriz aredondado e largo sempre denunciou a origem negra. Origem sem raízes e consciência, para mim e para quase metade da população brasileira. A negritude externa não tinha um referencial interno. Eu olhava para o espelho, mas apesar da  pele morena mulata afrodescendente o que eu via era uma pessoa branca, com ideais, sonhos e desejos de uma cultura eurocentrica.
 
A convivência intensa com a família materna branca e a falta de contato e identificação com a paterna negra criou uma pessoa por dentro, e outra por fora. Alta e magra, essas são características da ascendência negra. Apesar de gostar de tais características, não atentava para o que elas significavam em termos de origem, diversidade e multiplicidade de subuniversos a conhecer. Minha auto-imagem não era real. 
 
Hoje isso é claro. Tenho marcas de expressões agora, não provenientes da idade, mas da aquisição de consciência de quem sou, de onde vim e para onde vou. Do encontro com a outra parte de mim que acabei de conhecer aos 20 anos. Muito prazer, minha outra metade, hoje meu retrato é mais bonito, mas ainda não está completo, continuo procurando a identidade que molda o que vejo no espelho. 
 



Escrito por Thais às 12h12
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Por uma festa popular 2

Ok, alguns vão falar: "Olha, como ela é chata e odeia o carnaval". Para estes eu vou dizer: "Não, eu não odeio o Carnaval, só andei refletindo sobre ele, antes que todos os meus pensamentos se voltem para o TCC e eu me torne uma pessoa realmente chata e sem nenhum outro assunto a não ser: guess!" Enfim, hoje a coluna do Jânio de Freitas está ótima e traz novas reflexões sobre o nosso "não-Carvanal".

FSP 22/02/2009

JANIO DE FREITAS

Procura-se um nome


Misto de exibicionismo e de chamariz para o turismo sexual, Carnaval não é. A música? Samba não é
A INVENÇÃO que é o espetáculo nos sambódromos do Rio, de São Paulo e de seus imitadores, sendo já o paulistano uma imitação do carioca, ainda leva o nome genérico de Carnaval e o nome particular de desfile das Escolas de Samba. Não é um, nem é outro. Usa aqueles nomes por apropriação indébita. O que é, não sei, e jamais ouvi sequer sugestão a respeito.
Tais como são, esses acontecimentos anuais refletiram, na sua origem, o espírito de "Brasil Grande" que inundava o país de propaganda da ditadura, ainda em sua pior fase. Como padrão estético, se a expressão não exagera demais, aderia e projetava o "padrão Globo" que então começava a impor-se, com a multidão de cores e formas de gosto suburbanamente duvidoso, e constituía a manifestação integral do espírito de "Brasil Grande".

As características do acontecimento levado ao Sambódromo do Rio foram criadas sobretudo por Joãosinho Trinta, desde então saudado acriticamente como prodígio de criatividade. Mas a hábil apreensão do espírito propalado, adaptando a grandes dimensões e a algum repique de tamborins os desfiles à velha maneira europeia (já outrora adaptados aqui pelas Grandes Sociedades), não bastaria para materializar a ideia. Era necessário dinheiro farto e fácil. E um dos repositórios mais satisfeitos por esse dinheiro são os bolsos dos bicheiros. De antigos signatários das listas de arrecadação das escolas de samba autênticas, os bicheiros passaram a tutores, financiadores, presidentes e diretores, orientadores e representantes políticos e sociais das entidades que tomavam o lugar das escolas originais. Donos.

Há mais proximidade entre contravenção e ditadura do que se ousou reconhecer, não só à época, mas até hoje. Graças ao grande poder de influência nos seus domínios ditos carnavalescos, os bicheiros ganharam da ditadura, e da política em geral, passe livre para suas atividades convencionais e, ainda melhor, para enveredar por novas especialidades. Eventuais situações incômodas, só como decorrência de disputas entre políticos, realidade que perdura. Simbólico, mas nem de longe caso único, da proximidade entre contraventores e ditadura aí está, ainda, o capitão Guimarães, que passou direto dos quartéis de repressão e tortura para o controle de uma rede de jogo de bicho e coliderança da classe.

Com a solução financeira, criou-se uma ciranda desatinada. Vários fatores provenientes do novo espetáculo, a começar do preço das entradas, afastaram do Sambódromo carioca o chamado povão. Mas quem, na realidade, paga a maior parte do espetáculo é o povão. Porque é o povão que, na vã esperança de ganhar algunzinho no bicho, engorda os cofres dos bicheiros. É a mágica à brasileira: tiraram do povão o que ele criou e o fazem pagar, sem saber, o custo do que o usurpou e falsifica a sua criação.

Contribuição triste para isso tudo foi a boa intenção do Sambódromo, como projetado por Niemeyer. Sua insipidez estética, a capacidade de acumular calor, o desconforto das arquibancadas já seriam deploráveis. A criação de áreas em tudo privilegiadas, para a comodidade dos camarotes reservados à riqueza e à mediocridade "célebre", completa a contribuição com evidência e ênfase definitivas.

Se o povão fica à margem, Carnaval não é. Misto de exibicionismo por si só, e de chamariz para o turismo sexual, e de montagens delirantes, e sem a alegria tipicamente carnavalesca, Carnaval não é. A música? Boa ou ruim, samba não é. Um ritmo sem nome, criado para um espetáculo sem nome próprio.

 



Escrito por Thais às 16h08
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 A faculdade de segmentar

Esses dias estava pensando não só na elitização das faculdades, tomando a Cásper como exemplo vivo e vivido, mas também na falta de diversidade cultural e de interesses entre os alunos proveninetes dessa segmentação, promovida antes pelo valor da mensalidade do que pelo vestibular - a mensalidade da Cásper, por exemplo, está em R$ 946. A maioria dos alunos vêem de colégios particulares, gostam dos mesmos filmes e livros, frequentam os mesmos locais, se vestem de forma parecida - até aí nenhuma novidade. Ontem, Contardo Calligaris escreveu, em sua coluna na Folha de S. Paulo, um ótimo texto refletindo sobre o trote como expressão de um costume da elite em usar a universidade como privilégio. "A partir de 68, na Europa, por efeito da contracultura, ser universitário não foi mais um passaporte para o privilégio, mas uma responsabilidade social. Em 92, estudantes brasileiros pintaram a cara por uma razão diferente do trote: teria sido uma boa ocasião para eles deixarem de ver a celebração do duvidoso privilégio de esculachar os moradores do andar (social) de baixo. Não aconteceu: a selvageria da divisão social continuou falando mais alto", escreveu Calligaris.

Quem tiver tempo, vale a pena ler o texto todo:

19/02/2009

CONTARDO CALLIGARIS

Trotes de calouros

A universidade é um clube de "elite", cujos membros podem tratar a todos como bichos

NA MINHA terceira viagem ao Brasil, num verão dos anos 1980, vi pela primeira vez, nos faróis, jovens de cabeça raspada e tinta espalhada pelo corpo e pelo rosto. Pensei que fizessem parte de um bloco carnavalesco. Não imaginei que a prática do trote de calouros ainda existisse no país.

Na Europa, no passado, essa prática tinha sido brutal: na Itália, os alunos "anciões" se reuniam em confrarias e vendiam proteção aos calouros, que compravam salvo-condutos para poder circular livremente. Alguns estudantes permaneciam na universidade para sempre, sem formar-se, e ganhavam a vida explorando os novatos. Esse sistema acabou bem quando eu entrei na faculdade; dele, na Milão de 1966, só sobravam restos miseráveis: dois repetentes crônicos mendigando cigarros pelos corredores da universidade. Depois de 1968, até esses restos sumiram. Por que o costume do trote de calouros cessou naqueles anos?

O trote é um rito de iniciação, pelo qual os calouros seriam aceitos na comunidade: "Somos da mesma turma: fomos todos calouros um dia". Eu preferiria que a turma universitária tivesse outra consistência, mas a gente sabe que os adolescentes almejam sentir-se integrados -a qualquer custo ou quase. Seja como for, em regra, quem está sendo iniciado sente na carne os efeitos do poder que ele mesmo será autorizado a exercer depois de sua iniciação.

Mas cuidado, no trote iniciático, não se trata apenas de forçar o calouro a experimentar os efeitos do poder que ele terá sobre os futuros novatos. O que mais importa, na iniciação, é que o calouro sinta na pele os efeitos do poder que o grupo exerce ou pretende exercer sobre todo o resto da sociedade.

Um exemplo. Imaginemos que, para entrar numa máfia, eu seja amputado de um dedo. Os candidatos futuros também serão amputados (por mim ou por eles mesmos), mas, antes de mais nada, minha iniciação deve me lembrar que a máfia, na qual estou entrando, arroga-se o direito de amputar os bens e a carne de todos os que não fazem parte da "família". Como isso se aplica ao caso dos calouros?

Pois é, no Brasil de hoje, a universidade ainda é um clube de "elite", cujos membros podem se sentir autorizados a tratar não só os calouros, mas os comuns mortais como bichos. Estou exagerando? Talvez, mas não há muitos países em que existe uma cadeia especial para universitários e outra para pés-rapados.
E, se isso não bastar, mais dois lembretes. Em dezembro passado, um grupo de alunos de medicina da Universidade Estadual de Londrina festejaram sua formatura iminente com bebedeira, rojões e sprays de espuma -isso, numa enfermaria cheia de pacientes (alguns em estado grave). Eles comemoraram seu ingresso na profissão médica esbanjando seu poder de zombar dos que lhes confiariam sua vida.

No começo deste mês, em Campinas, estudantes de direito, que estavam atormentando calouros, estenderam o tratamento a um morador de rua que foi raspado, pintado e batido. Eles expressaram sua alegria de futuros juristas abusando dos direitos básicos de um desamparado. Talvez o trote de calouros sempre tenha sido isto, mundo afora: a iniciação numa "elite" que se define pela brutalidade de seu privilégio e que transmite a seus novatos a arte de brutalizar os zé-povinhos.

A partir de 68, na Europa, por efeito da contracultura, ser universitário não foi mais um passaporte para o privilégio, mas uma responsabilidade social. Em 92, estudantes brasileiros pintaram a cara por uma razão diferente do trote: teria sido uma boa ocasião para eles deixarem de ver a celebração do duvidoso privilégio de esculachar os moradores do andar (social) de baixo. Não aconteceu: a selvageria da divisão social continuou falando mais alto.

Na Folha de domingo passado, José Goldenberg, ex-reitor da USP, observou que as instituições universitárias não podem intervir em acontecimentos que, em geral, são externos à faculdade. Discordo.

Não são tão "externos" assim: o trote compromete o próprio sentido do ensino, alimentando uma visão doentia do privilégio conferido pelo fato de frequentar uma universidade. A universidade e as próprias profissões às quais ela dá acesso deveriam, no mínimo, impor aos responsáveis pelos trotes uma formação suplementar: anos de serviço social e de cursos básicos de ética. Afinal, queremos uma "elite" que se ufana de seu privilégio e de seus abusos ou uma elite sem aspas?

 

   



Escrito por Thais às 10h20
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Oração ao Santo Obama

"Santo Obama que estais na Casa Branca.
Santificado seja o teu mandato.
Venha a nós a vossa bondade.
Seja feita a vontade do povo, em todas as partes da terra e também do céu.
Que não falte o nosso pão de cada dia.
Perdoai, Obama, aqueles que te ofenderam (já começaram as críticas).
Assim como nós perdoamos aos nossos credores, cobradores das nossas hipotecas.
Não nos deixai desempregados e sem casa pra morar.
Livrai-nos da imigração,
Que toda nação de indocumentados seja legalizada.
Amém."

Oração do jornalista e produtor de eventos José Francisco da Silva Filho, mais conhecido como Francisco Sampa, brasileiro de Recife que vive em Nova Jérsei, EUA. Ele vai publicar seu primeiro livro, "Um Jornalista Brasileiro Negro na Terra de Obama", uma coleção de artigos do seu blog e do jornal Brazilian Press. Para ler matéria completa sobre a figura:

 http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2009/02/19/lucas-mendes-pao-nosso-do-francisco-754487740.asp



Escrito por Thais às 10h02
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Por uma festa popular

Do pouco que conheço da história do Carnaval no Brasil, sei que suas origens são populares e remontam festas que aconteciam nas ruas, espaço público e democrático, onde as pessoas iam “brincar” (não no sentido Macunaíma da palavra, mas no sentido infantil mesmo). O samba, matéria-prima do carnaval, então, nem se fala: surgiu nos morros e comunidades como expressão da cultura negra.  As escolas de samba, inclusive, nasceram de blocos de ruas e, inicialmente, eram agremiações das quais faziam parte e desfilavam pessoas da comunidade que a tinha criado.

Hoje, já não é bem assim. Quais mulheres estão à frente das baterias das escolas de samba: passistas da comunidade ou celebridades Globais?  A incorporação das escolas de samba à lógica comercial, e o conseqüente distanciamento da comunidade e de sua origem popular, é tanta, que há relatos de escolas que têm de contratar senhoras para saírem pela ala das baianas (ala fixa tradicionalmente composta por senhoras da velha-guarda da agremiação), porque não há número suficiente de pessoas da própria escola ou pessoas de fora dispostas a pagar R$ 400 pela fantasia, preço médio das alegorias da Vai Vai este ano.

No último fdomingo presenciei manifestações dos “dois carnavais” (o popular e o comercial) no mesmo dia. À tarde fui ao Memorial da América Latina ver os blocos de carnavais, esses de rua. Cheguei quando um bloco da terceira idade estava se apresentando: pessoas alegres, cantando e dançando ao som de marchinhas tradicionais. Era tudo muito espontâneo. Nem a chuva espantou a maioria das pessoas que estavam no local e que continuaram dançando com os guarda-chuvas abertos, ou sem nada mesmo, na arquibancada. O toró começou no meio do desfile da Grêmio Recreativo Escola de Samba Quilombo, criada em julho de 2007 para resgatar aquela escola de samba de outros tempos: “A Quilombo é uma escola de samba, não uma escola de carnaval. Queremos mostrar que o samba não morreu, resgatar as pessoas da velha guarda, e passar para as novas gerações os fundamentos do samba e de outras vertentes da cultura afro-brasileira, como era o ideal do Candeia”, afirmou Thiago Praxedes, mestre de bateria e diretor-presidente da escola, à jornalista Cinthia Gomes. Para ler matéria completa:

http://www.facasper.com.br/cultura/site/ensaio.php?tabela=&id=363

Do Memorial fui para o ensaio da Vai Vai, no Bixiga. Rua fechada, R$ 10 reais para entrar. Minha primeira impressão foi de que aquilo era uma baladinha: jovens com chopps na mão (você pagava mais 10 mangos - além da entrada - por uma caneca e podia beber a vontade). Mas, pensei, não vamos tirar conclusões precipitadas. Durante aproximadamente uma hora e meia o que se ouviu foi o samba enredo da escola deste ano – nada mais natural. Mas qual não foi minha surpresa quando eles param de tocar, um cara disse algumas coisas inaudíveis no microfone e quando pensei que eles fossem tocar outros sambas – os enredo dos outros anos, talvez – o que ouvi foi black music! Nada contra o ritmo, que gosto, mas não estávamos numa escola de samba?

A sensação que tenho é de que cada vez mais as manifestações populares são privatizadas e se você não tem dinheiro, meu amigo, vai pular carnaval em frente à TV assistindo aos desfiles na Globo.   

 

Agradecimento 1: Obrigada Li pelo incentivo para voltar a escrever aqui.

Agradecimento 2: Obrigada Cin e Rafa pelo convite, conversas interessantes, sombrinhas "furadas" e experiências enriquecedoras que deram assunto a este post.

 



Escrito por Thais às 10h49
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Meias Verdades

VERDADE

Carlos Drummond de Andrade

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
 
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
 
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.
 
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.



Escrito por thais.folego às 14h32
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